Você é pai do Inácio*?
No 45º dia de internação da Mariana na UTI, me deparei com uma pergunta daquelas que faz passar um filme na cabeça.
- Você é o pai do Inácio*? - perguntou a médica.
- Não, sou o pai da Mariana - respondi
Estava sentado na salinha de espera da UTI Neonatal do hospital. Salinha que era como minha segunda casa. Já estava ali há 45 dias. “Será que já posso pedir comprovante de residência?”, brincava em alguns momentos.
Alguns dias eram mais leves que outros e permitiam brincadeirinhas - como o fato de já ser íntimo dos enfermeiros, técnicos e de alguns funcionários do hospital, e dar pitacos na sua vida pessoal.
“Você viu o jogo do Grêmio de ontem, ganhamos por pouco, heim?”. “O Festival de Cervejas foi muito massa! Fui com um amigo argentino que é cervejeiro, ele me indicou as melhores artesanais para beber”. “Eu moro com meu namorado, mas a gente não tá muito bem. Eu durmo numa ponta da cama e ele na outra kkkk”. Diálogos trocados entre uma e outra limpada de fralda dos bebês.
Mas este foi um dia sério, um dia triste. A pergunta que a médica me dirigiu soou inofensiva no começo. Alguns minutos depois apareceu o pai do Inácio. Ele entrou na salinha de UTI, sentou, estava digitando no celular. Pelo canto do olho, vi ele secando tímidas lágrimas. As outras três mães que estavam na salinha tentavam seguir a conversa delas sobre algo que não lembro agora, como uma forma de dar privacidade ao choro daquele pai.
O que a gente sabia, àquela altura, era que o Inácio havia dado entrada há pouco na UTI. Um bebê nascido horas antes. Como não conseguimos entrar para ver nossos filhos, entendemos que algo grave estava acontecendo.
O pai do Inácio foi chamado, entrou na UTI para ver o filho e logo saiu. Pegou elevador, a expressão preocupada e triste no rosto. Estava voltando ao quarto para dar notícias à esposa.
“Nossa, como ele vai contar para a esposa que o filhinho deles está grave?”, comentei na salinha. Ninguém respondeu. Havia uma comoção no ar. Um sentimento compartilhado de dor, apreensão e empatia entre os pais da UTI. Torcendo para o pior não acontecer. Abraçando em pensamentos - e muitas vezes fora deles - os pais que passam por isso. Rezando para que isso não venha a acontecer com seus pequenos.
Passam uns minutos, o elevador abre e o pai do Inácio está ali com a esposa. Ela ainda de cadeira de rodas, vestida com um pijama salmão. Devia estar se recuperando da cesárea.
Eles passam pelo vão entre o elevador e o piso. A cadeira trepida, ela se queixa baixinho de dor.
Tocam a campainha da UTI. O enfermeiro atende, expressão preocupada no rosto. Pede para esperar um pouco.
Os minutos parecem durar horas.
Então me dou conta.
Eu não era o pai do Inácio, mas poderia ser. Na verdade, já fui. Estive na mesma posição dele 45 dias atrás.
Mariana havia nascido no início da tarde de uma sexta-feira. Era prematura de 35 semanas e 6 dias (quando você descobre que está esperando um bebê, o tempo começa a ser contado em semanas, mas isso equivale a uns 8 meses de gestação). Depois do parto, foi logo encaminhada para a UTI para observação e, tudo estando OK, seria liberada em 24 ou 48 horas. Era algo apenas protocolar.
Mas o que aconteceu a partir daí não foi nada protocolar.
Mariana precisou ser entubada, com muito oxigênio e ajuda de óxido nítrico. Teve uma hipertensão pulmonar. Contraiu infecção. A pressão baixou muito. Recebeu um sem-fim de medicamentos.
Foram 4 dias de muita luta da nossa filha, estava muito grave. Ela quase não resistiu. Foram dias em que o mundo parecia sem cor, envolto em uma névoa cinza e sem graça.
Milagrosamente, Mariana suportou tudo. Aos poucos foi se livrando do tubo, venceu a infecção e seu mini-corpinho foi reagindo. A cada pequena melhora, nosso mundo voltava a ganhar mais cor.
Então 45 dias se passaram. Ela segue na UTI, agora mais estável.
Uma situação levantada ainda na gestação se confirmou: Mariana é portadora de uma condição genética rara. Uma alteração no cromossomo número 5, que acomete menos de 0,3% das pessoas e que não chega nem a ter um nome definido. Estamos descobrindo aos pouquinhos os efeitos dessa raridade em sua vida.
O que sabemos e sentimos é que ela é uma menina muito especial, cheia de vida e nota 10 no fofurômetro. Tem sido nossa maior professora e compartilhar essa jornada de aprendizado por aqui é uma forma de terapia, de me expressar, de colocar pra fora tudo o que rola aqui dentro e de eternizar essa história que já é tão incrível.
Obrigado por se interessar por esta jornada (:
Ah, não posso ir embora sem dizer: o pequeno Inácio não resistiu e sofreu uma parada. O céu ganhou mais uma estrelinha naquele dia. Assim são os dias na UTI, uma motanha-russa gigantesca. Deixo a minha prece por ele e por seus pais. Se você sentir no seu coração, faça uma prece também por eles.
*Inácio é um nome fictício para preservar a identidade original do bebê.



Rodrigo, que texto emocionante! Torcendo aqui pela recuperação da Mariana!
Acabei de ler esse pedacinho da história da Mariana e enquanto lia achei que este texto pode ter trilha sonora: https://open.spotify.com/track/3Gam4UbOwnwQQQKuItui39?si=mRMEOK7nSp6TfWN49l9Grw&context=spotify%3Asearch%3Araridade parabéns pela iniciativa!!